'Entre o que vejo e o que fui há um hiato pouco explicável.'

sexta-feira, 29 de abril de 2016

"Troco de roupa, mudo as cores dos paramentos, visto-me de azul ou preto e acabo por nausear-me com os trajes que cobrem o meu corpo. dispenso os adereços, retiro brincos, colares, pulseiras… Como quero realmente tratar a minha aparência? Que imorta a roupa, o degradê do tom, se o que me toca é a essência de mim. As mutaçoes se acumulam e, no entanto, custa-me acreditar que ainda não me descobri por inteira. Aos poucos, com o passar dos anos, percebo a dificuldade de ser. A madureza aumenta a responsabilidade da existência, e entre tantos vazios habita uma alma repleta de pulsações. Não vem de hoje essa insatisfação diária.
O espelho mostra-me um rosto que não é o meu. Ou que é meu e o desconheço. Mudei na medida da minha própria inquietação; hoje trago apenas o contorno das linhas originais. O tempo devastou-me e não dei conta de sua irreversível corrida.
Entre o que vejo e o que fui há um hiato pouco explicável. Não esqueço a menina inocente que corria pelo quintal sem destino; agora tenho um rumo e nem sei se consigo persegui-lo."
"Mas como menina-teimosa que sou, ainda insisto em desentortar os caminhos.
Em construir castelos sem pensar nos ventos.
Em buscar verdades enquanto elas tentam fugir de mim.
A manter meu buquê de sorrisos no rosto,
sem perder a vontade de antes.
Porque aprendi com a Dona Chica, que a vida, apesar de bruta, é meio mágica.
Dá sempre pra tirar um coelho da cartola.
E lá vou eu, nas minhas tentativas, às vezes meio cegas, às vezes meio burras, tentar acertar os passos.
Sem me preocupar se a próxima etapa será o tombo ou o voo.
Eu sei que vou….” Por Caio Fernando de Abreu

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Tomara que os olhos de inverno das circunstâncias mais doídas não sejam capazes de encobrir por muito tempo os nossos olhos de sol. Que toda vez que o nosso coração se resfriar à beça, e a respiração se fizer áspera demais, a gente possa descobrir maneiras para cuidar dele com o carinho todo que ele merece. Que lá no fundo mais fundo do mais fundo abismo nos reste sempre uma brecha qualquer, ínfima, tímida, para ver também um bocadinho de céu. Tomara que os nossos enganos mais devastadores não nos roubem o entusiasmo para semear de novo. Que a lembrança dos pés feridos quando, valentes, descalçamos os sentimentos, não nos tire a coragem de sentir confiança. Que sempre que doer muito, os cansaços da gente encontrem um lugar de paz para descansar na varanda mais calma da nossa mente. Que o medo exista, porque ele existe, mas que não tenha tamanho para ceifar o nosso amor. Tomara que a gente não desista de ser quem é por nada nem ninguém deste mundo. Que a gente reconheça o poder do outro sem esquecer do nosso. Que as mentiras alheias não confundam as nossas verdades, mesmo que as mentiras e as verdades sejam impermanentes. Que friagem nenhuma seja capaz de encabular o nosso calor mais bonito. Que, mesmo quando estivermos doendo, não percamos de vista nem de sonho a ideia da alegria. Tomara que apesar dos apesares todos, dos pesares todos, a gente continue tendo valentia suficiente para não abrir mão de se sentir feliz. Tomara.
Ana Jácomo

domingo, 19 de maio de 2013

"E, olha, é difícil eu confiar numa pessoa. Já apanhei tanto da vida que tenho calos, marcas e cicatrizes." 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Um dia eu tive a impressão de que o amor tinha chegado. Meio súbito, meio sem jeito, meio calado. E aquele sentimento veio tomando conta feito nuvem preta no céu em dia de temporal. Começou um vento forte dentro de mim, uma sensação de inquietude. E minhas noites não foram mais iguais. Ficava esperando um sinal, uma marca, uma tatuagem. Alguma coisa que me dissesse que, sim, seria bom e duradouro.
Eu queria gritar, pedir socorro, mas a voz não chegava até a boca, não conseguia emitir nenhum som. Eu queria viver, sentir, saber, conhecer mais de perto aquilo que não tinha um nome certo, mas que eu queria que fosse amor. A gente quer que seja amor sempre. Acho que isso acontece porque a gente quer viver uma coisa bonita, uma coisa que todo mundo nessa vida diz que vive ou já viveu.
Quer saber um segredo? As pessoas mentem. Nem todo mundo viveu um amor. E não é todo mundo, desculpa a franqueza, que vai ter a chance, a sorte, a ousadia de viver um sentimento tão puro como esse. Eu queria de uma forma meio desesperada que fosse amor. E dizia que era.  Até sentia que era. Sentia porque eu queria, muito, sentir. Mas, olha, não era. Não era, não foi. A gente não foi tudo aquilo, não. Aquilo era uma paixão forte, uma coisa que me tocou, me mexeu, me revirou, chegou sem fazer barulho, pé por pé e depois fez um estardalhaço grande aqui no meu peito, na minha vida, nos meus dias, nas minhas noites. Aquilo quase me destruiu por dentro e por fora. Acho que você não entende direito o que quero dizer, mas quem já viveu uma paixão violenta e arrebatadora sabe do que estou falando. Dói, ai, como dói. E arrebenta por dentro. Arrebenta feito balão de festa. Estoura, entende? Estoura e não sobra nada, não sobra um pedacinho pra contar história. Aquilo é feito um vaso bonito e caro, que se parte em vários pedaços e muito, muito tempo depois de ter varrido a sala você encontra um caquinho naquele canto do sofá. Não, ninguém viu. Você varreu o melhor que podia, mas deixou aquele caquinho passar. E aquele caquinho traz de novo todas aquelas recordações que você pensou ter esquecido. Aquele caquinho traz aquele pedacinho que não tinha sobrado nem pra contar história. Então, as histórias aparecem. Uma de cada vez. Uma de cada vez, uma em cada lugar da longa fila. Uma que vem depois da outra. Uma que chega, te dá um pontapé e chama a outra.
No fundo era medo. Era um medo tremendo de deixar alguém chegar até onde ninguém tinha ido. Era um medo de ir até onde nunca fui. Era um medo profundo de perder a identidade, perder a hora, a cabeça, as verdades. Que besteira. Meu Deus, que besteira enorme! O amor chegou sorrindo. Sem gritar, sem calar, sem ponto de interrogação. O amor trouxe reticências. Algumas vírgulas. E muitos parágrafos. O amor trouxe novas folhas brancas. E pele, aconchego, abraço. O amor é um abraço apertado. Um beijo na testa. E uma mão firme que te ampara a todo instante. O amor é compreensão, é olho no olho, é promessa que cumpre, é voz que não gagueja, é quietude, segurança. É impossível esquecer um amor. E, sabe, sou daquelas que acha que amor mesmo, amor de verdade a gente só vive uma vez. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012



Olha, eu tenho visto muitas coisas por aí. Parece que a cada dia que passa as pessoas ficam mais infelizes. É claro que todo mundo quer ter tudo. Mas você sabe que isso é impossível. Alguma coisa sempre vai faltar, essa é a graça da vida (e a grande questão do ser humano). E seria tão mais fácil se a gente aceitasse isso sem questionar, não é mesmo? Mas questionamos todos os dias, as horas, os segundos. Entramos num labirinto atrás de respostas. 
Eu sempre tive a cabeça e os pés nas nuvens. Era uma otimista nata. Achava que tudo ia se resolver, que as coisas iam dar certo. Depois, vivi um período que chamo de aprendizado. Nele, passei noites em claro em busca de soluções, saídas e atalhos. Revirava na cama pensando nos problemas. E não resolvia nada. Além disso, ganhava de brinde olheiras, uma cara amassa e um humor instável pela noite mal dormida. Custou muito até que eu encontrasse o meu equilíbrio. Foi muito trabalho árduo, muita terapia, muita leitura, muita vivência. Hoje eu consigo dar bola para o que realmente importa. É claro que de vez em quando tenho recaídas, mas aí puxo a minha orelha e digo para. Chega. 
Sei que o sofrimento faz parte da vida, mas não sofro mais de graça. Não mereço. E acho que você também não merece. Pra você pode parecer bobo ou clichê, - e talvez eu seja mesmo boba e clichê - mas sempre acreditei que o nosso pensamento coordena nossa vida. Se eu deixar, meu pensamento me domina e me dá tarefas diárias e cansativas. Mas meu pensamento não me manda, não me governa, não é meu chefe e não paga minhas contas. A gente tem que ter autocontrole. Não gosto de ficar me queixando, deixar uma energia negativa circular na minha volta, sentir o azedume na boca, ficar com uma ideia fixa na cabeça. É por isso que minhas lamentações e reclamações duram no máximo 24h. Não me permito mais do que isso. Sou humana, é lógico que sim! É claro que fico puta, perco a paciência, perco a fé, perco a vontade, perco o saco, perco o rumo, perco a esperança. Por 24h. Depois eu chamo essas coisas de volta. Porque a gente tem que acreditar. Tem que saber enxergar as coisas na vida. Sempre tem uma saída. Sempre. Sempre existe um novo olhar, um novo caminho, uma nova maneira. 
Uma vez, escutei uma coisa que nunca mais esqueci: se o que você está fazendo não está dando resultado, talvez o problema não seja atingir a forma certa, e sim refazer as coisas. Fazer de novo, de um novo jeito. Se o seu jeito não está funcionando, troque de jeito até acertar. Ah, é fácil falar. Claro que é. Mas não é tão difícil assim fazer, não. Sabe por quê? Existem coisas que dependem única e exclusivamente de você. Essas você pode se mover, batalhar, ir atrás. Só que existem tantas outras que dependem de outras pessoas e outros fatores. Daí você vai esquentar a cabeça com isso? Não, por favor. Isso é um crime. 
Problema todo mundo tem. Mas ele é que nem planta: se a gente rega ele cresce e se espalha por toda a vida. Todo mundo tem problemas, em maior ou menor grau. E não pense que minha vida é cor de rosa e toda boa porque não é. Estou cheia de problemas, cheia mesmo. É que nem todo mundo sabe, eu não conto. Hoje em dia sou mais contida, guardo as coisas pra mim, não saio falando dos meus problemas e das minhas neuroses para ninguém, nem para meus pais. Pago um terapeuta pra isso. Mas nunca estive com tantos problemas, pode apostar. Só que eu faço as coisas que posso. O que depende de mim. O resto eu deixo a vida resolver. Se eu puder, dou uma mãozinha. Se eu não conseguir, paciência. Não faço cara feia pra vida porque não quero que ela faça cara feia pra mim. Nada vale a minha paz e o meu desânimo. Por Clarissa Correa




Existem coisas que eu prefiro esconder de você. Eu sei, sei que a gente não deve ter segredos, que a gente não deve engolir a contragosto uma palavra, que a gente deve se abrir e deixar a emoção tomar conta. Muito fácil falar, não é verdade? Sempre foi fácil falar, o difícil mesmo é viver. O difícil é a gente lutar contra nossos demônios, contra nossos planos, contra nosso roteiro. Porque todo mundo tem um roteirinho guardado dentro da bolsa. É lá que escrevemos nossos projetos mais ousados, nossas metas e, é claro, nossos sonhos. Mesmo assim, preciso ser franca, existem coisas que prefiro esconder de você. 
Não sei se você me entenderia, se me apoiaria, se me daria a mão e entraria nessa comigo. Honestamente, eu não sei. Eu entendo tudo que temos, valorizo tudo que fomos, que somos e que ainda seremos juntos, mas acredito muito em destino. Não que eu seja uma conformada, que ache que “o destino quis assim”, mas poxa vida, cara, eu só quero ser feliz. A gente está aqui pra ser feliz, pra viver mais leve, pra conseguir a tão sonhada paz de espírito. Eu não quero luta, briga, discussão, eu quero amor. É tão simples a gente querer amor, não é mesmo? Mas o amor vem com muita coisa por trás. O amor nunca chega sozinho. Ele traz um pouco de dor. Porque a gente não quer decepcionar o outro, de alguma forma a gente quer ser aquilo que o outro quer e espera. E, junto com tudo isso, não queremos - nem podemos - deixar de lado o nosso eu. Não dá pra se anular, viver para o outro, esquecer da individualidade e dos desejos. Porque todo mundo tem desejo, tem vontade, tem um projeto de vida. E eles podem ser diferentes, podem entrar em conflito, podem se estranhar. Por isso, a gente precisa de paciência, conversa, jogo de cintura e algum sacrifício. É, ninguém disse que uma relação é simples. A gente precisa ceder, o outro precisa ceder, um dia alguém me falou que não dava pra ter tudo. E não dá. Se desse não seria a vida. A gente pode ter o suficiente, mas tudo, tudo não. Por favor, faça isso entrar na sua cabeça que eu vou fazer entrar na minha. Vamos torcer, dar 3 pulinhos, acender uma vela, rezar para todos os santos que nem acreditamos, mas vamos fazer alguma coisa. Por mim, por você, por nós.
Olha, eu não esperava que você me respondesse. Só esperava, sei lá, eu nem sei o que esperava. Só queria que você também quisesse. É muito difícil compreender isso, eu sei. Eu queria que você quisesse pendurar aquele quadro na parede. Eu queria muito que você quisesse junto comigo. Junto, sabe? Porque dois é sempre melhor que um. Dois são força. Dois são fortaleza. Dois são suporte. Dois são amor. Dois são continuidade. Tem coisa mais bonita que isso? Dois são uma promessa de futuro. Um futuro bonito. Porque todo futuro é bonito, eu sou otimista e a gente pensa assim. Futuro tem que ser bonito, por mais que o passado tenha sido triste e o presente uma incógnita. Do presente a gente só vai saber no futuro, quando o presente passar, a gente sentar, tomar um vinho bom e avaliar o que passou pelos nossos olhos. 
Você deve estar me achando maluca, eu sei. Você sempre me acha maluca quando começo a falar essas coisas, assim, de dentro. Mas, sabe, eu sou uma pessoa toda pra dentro e cada vez mais vou entrando em uma toca que é só minha. Nela, não tem campainha, grade, nada, eu não sei me proteger, entende, eu não sei me proteger e é por isso que sofro tanto. Eu me dou tanto para os outros que às vezes me olho no espelho e pergunto nossa, quem é essa? Não que eu seja uma puritana santa, que nada. Às vezes eu sou mesmo é uma puta suja. Mas eu quero o bem de quem eu gosto, disso não abro mão. Sou capaz de esquecer do que quero para os outros ficarem bem. Os outros, os meus. Entende? Sou possessiva, sim. Quem eu amo é meu e fica guardado aqui num cantinho todo enfeitado. Tiro o pó todo dia, coloco um vasinho de flor, as coisas precisam ter alguma beleza, você não acha? E aqui dentro cabe todo mundo que faz parte dessa minha vida que, sim, é boa. É claro que nem todos os dias são bons, mas não esqueça que sou otimista, sempre acredito que a coisa vai melhorar, que alguma notícia boa vai chegar e quer saber? Ela chega. Uma hora ela chega. 
Por favor, pensa com carinho na gente. Fecha os olhos e sente todo o amor que fica na nossa volta, como uma bolha, uma redoma. Somos inatingíveis. Nosso mundo é mágico, o amor é mágico. Ele modifica. Ele me modificou tanto, me fez melhor. Ele te fez melhor também. Dá aqui a tua mão. Sente meu coração, sente o calor que sai da minha boca. Isso é amor. Isso é a magia que o amor faz com a gente. Eu sei que a gente consegue, eu sei. Não é assim tão difícil. Por favor, não te anula, não te deixa de lado. Mas não faz com que a minha vida fique de lado também. Não é justo com você, comigo, com a gente. Por favor, não fica com medo. Dá aqui a tua mão. Vou segurar ela bem forte e, juntos, vamos conseguir enfrentar qualquer coisa boba ou séria. Sabe por quê? Porque a gente se ama. E nada mais importa.