"Troco de roupa, mudo as cores dos paramentos, visto-me de azul ou preto e
acabo por nausear-me com os trajes que cobrem o meu corpo. dispenso os
adereços, retiro brincos, colares, pulseiras… Como quero realmente
tratar a minha aparência? Que imorta a roupa, o degradê do tom, se o que
me toca é a essência de mim. As mutaçoes se acumulam e, no entanto,
custa-me acreditar que ainda não me descobri por inteira. Aos poucos,
com o passar dos anos, percebo a dificuldade de ser. A madureza aumenta a
responsabilidade da existência, e entre tantos vazios habita uma alma
repleta de pulsações. Não vem de hoje essa insatisfação diária.
O
espelho mostra-me um rosto que não é o meu. Ou que é meu e o desconheço.
Mudei na medida da minha própria inquietação; hoje trago apenas o
contorno das linhas originais. O tempo devastou-me e não dei conta de
sua irreversível corrida.
Entre o que vejo e o que fui há um hiato
pouco explicável. Não esqueço a menina inocente que corria pelo quintal
sem destino; agora tenho um rumo e nem sei se consigo persegui-lo."
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