"Troco de roupa, mudo as cores dos paramentos, visto-me de azul ou preto e
acabo por nausear-me com os trajes que cobrem o meu corpo. dispenso os
adereços, retiro brincos, colares, pulseiras… Como quero realmente
tratar a minha aparência? Que imorta a roupa, o degradê do tom, se o que
me toca é a essência de mim. As mutaçoes se acumulam e, no entanto,
custa-me acreditar que ainda não me descobri por inteira. Aos poucos,
com o passar dos anos, percebo a dificuldade de ser. A madureza aumenta a
responsabilidade da existência, e entre tantos vazios habita uma alma
repleta de pulsações. Não vem de hoje essa insatisfação diária.
O
espelho mostra-me um rosto que não é o meu. Ou que é meu e o desconheço.
Mudei na medida da minha própria inquietação; hoje trago apenas o
contorno das linhas originais. O tempo devastou-me e não dei conta de
sua irreversível corrida.
Entre o que vejo e o que fui há um hiato
pouco explicável. Não esqueço a menina inocente que corria pelo quintal
sem destino; agora tenho um rumo e nem sei se consigo persegui-lo."
'Entre o que vejo e o que fui há um hiato pouco explicável.'
sexta-feira, 29 de abril de 2016
"Mas como menina-teimosa que sou, ainda insisto em desentortar os caminhos.
Em construir castelos sem pensar nos ventos.
Em buscar verdades enquanto elas tentam fugir de mim.
A manter meu buquê de sorrisos no rosto,
sem perder a vontade de antes.
Porque aprendi com a Dona Chica, que a vida, apesar de bruta, é meio mágica.
Dá sempre pra tirar um coelho da cartola.
E lá vou eu, nas minhas tentativas, às vezes meio cegas, às vezes meio burras, tentar acertar os passos.
Sem me preocupar se a próxima etapa será o tombo ou o voo.
Eu sei que vou….” Por Caio Fernando de Abreu
Em construir castelos sem pensar nos ventos.
Em buscar verdades enquanto elas tentam fugir de mim.
A manter meu buquê de sorrisos no rosto,
sem perder a vontade de antes.
Porque aprendi com a Dona Chica, que a vida, apesar de bruta, é meio mágica.
Dá sempre pra tirar um coelho da cartola.
E lá vou eu, nas minhas tentativas, às vezes meio cegas, às vezes meio burras, tentar acertar os passos.
Sem me preocupar se a próxima etapa será o tombo ou o voo.
Eu sei que vou….” Por Caio Fernando de Abreu
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